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segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Até à última gota





Ontem parei no tempo.



Concentrei-me na vela que se consumia lentamente à minha frente. Via a vida naquela chama e o seu recheio naquela cera. Todos somos muito diferentes mas é bem verdade que também somos bem iguais. Só existem dois tipos de velas para todos nós: aquelas cuja cera transborda e goteja momentos bons e maus vividos; e outra onde ela se acumula no centro, desperdiçando tudo o que poderia ter vivido, criando um imenso poço no seu seio.



Estou hipnotizado com o que vejo. O ardor intenso que escalda toda a divisão apenas derrete pequenas porções que gesticulam como vídeos do passado em miniatura. O pavio consome-se despreocupado, triste e lentamente. Vejo no ar os fumos de vidas passadas, tormentos e medos, alegrias e conquistas. Sinto o cheiro de ódios e podridão, amor e de pura paixão.



O ser humano é inconstante, é reticente, aqui jaz a sua beleza, aqui se vinca a sua derrota.



São os bons e maus momentos que fazem a vida valer a pena; sonhos são lenha molhada que não alimenta apenas prolonga e arrasta… não vivemos, pensamos estar a viver.



No final, quando o pavio desaparecer e a chama se extinguir, somos o que fizemos e não o que um dia sonhamos fazer.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Shadow Friend


Olho para trás do ombro e vejo segundos, minutos, horas, dias, meses que se passaram. Momentos que vivi, momentos que viveste através de mim… histórias que se semearam, edificaram e que morreram. Tumultos, alegrias, desilusões. Vivemos mentiras, verdades e discussões.

Lembras-te daquelas descrições infindáveis e dos vícios adquiridos? Das horas que passaram e agarrados ao telemóvel, constantemente, descobríamos tudo um do outro ; o que tive de arrancar até que começaste a contar por ti, o que tiveste de desemaranhar para abrir certas partes de mim…


Aqueles segredos, pequenos ou gigantes, que tantos sabem ou até mesmo ninguém. Aquelas perseguições entre dias e horas para que um abraço surgisse, uma palavra de apoio vocalizada, um momento em que poderia ouvir o teu riso e não imaginá-lo.


Recordas-te das chamadas monólogos e daquele dia em que finalmente passou a diálogo; feliz esse dia para ti, e para mim por ti. As confidências de tantas coisas em comum, algumas que nem sequer imaginávamos mas o mundo é pequeno.


Perco-me no escuro da tua face, encontro-me na luz das tuas palavras. Afinal quem vê caras não vê corações… e o teu é uma caixinha que abro e fecho quando mo permites; de onde extraio verdades e utopias, a amizade que se imagina perfeita.


Não é corpo aquilo que temos, é apenas alma. Adoro-te.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Um Comboio na praia



À minha volta as árvores correm, as pessoas falam imperceptivelmente atropelando-se, os carris gemem á nossa passagem.


Fecho os olhos. Silêncio, puro silêncio. Respiro fundo uma vez, outra mais. Concentro-me no vazio que me preenche. O ritmo cardíaco abranda, compassado, lento.


Cheiro o mar, sinto calor, a luz que me atravessa as pálpebras e pequenos grãos que me enchem as mãos.


O coração dispara, estou perdido. Onde vim parar? Cautelosamente abro os espelhos da alma e vejo o que me rodeia. Já não existem gemidos trepidantes, vozes amontoadas… apenas uma pequena península com água calma, repousada que abraça uma rocha no seu ritmo terno. A areia branca, fina fica mais pálida pela luz que a lua nova lhe lança e a brisa aquece o meu rosto despido de expressão. Em volta uma praia deserta.

Limpo os olhos do sono que ainda os perturba. Afasto as mãos e vislumbro um clarão, lá ao longe, embebido na areia como se o chão ardesse numa intensidade controlada.


Aproximei-me


No chão dispostos em forma circular, ardem pavios de areia. Não se sente o calor, é chama que não queima apenas arde como paixão sem desejo. No centro um leito feito em lençóis de seda negros como uma noite sem luar ou céu estrelado cobrem a areia pálida.


Procuro confuso, perco-me em olhares esguios até que te vejo. Vens na minha direcção. Fixo-te atentamente. Não trazes tecidos a cobrir-te o corpo moreno, vejo-o perfeitamente esculpido como se das mãos de um artesão tivesses saído. Entras no círculo de luz e paras. Os teus olhos fixam os meus, num olhar penetrante. Sinto-me um livro aberto cujas páginas devoras sem medo ou hesitação.


Estendes a mão e sinto-me deslizar em direcção a ti, os meus músculos não têm vontade própria. Beijas-me sem uma única palavra. O coração galopa dentro do meu peito, sinto a vida que me percorre as veias. Cada vez mais leve, a roupa desvanece à medida que me beijas o corpo. Estou vulnerável como no dia em que o mundo me conheceu.


Perdemo-nos na escuridão dos lençóis. Mãos que se cruzam e envolvem, que se perdem e reencontram, se dão e esperam receber. A intensidade aumenta. A respiração acelera. O teu rosto transparece um prazer louco.


Os pavios de areia vão-se apagando um a um…


É um jogo de sedução que nos enlouquece. Invado-te, abruptamente, de forma imperceptível unimo-nos num só. O ritmo das ondas acelera, a brisa outrora quente ferve agora no ar ao mesmo tempo que apazigua o fogo dos nossos corpos. Mordes-me o lábio; os teus olhos não param, deliram; estamos fora de nós. As pernas tremem, sem forças; os braços lutam para prender e dominar. Oiço ao longe a respiração de ambos, estamos quase lá, os dois, juntos.


O último pavio extingue-se. O comboio pára. Eu acordo, saio. O sonho acaba. A vida continua.

(Des)Ilusões


Procurar, procurar, procurar… Não é algo que se encontre porque não está perdido.


Seguimos caminho, lutamos por tudo e todos esperando tropeçar no que não encontramos.

O Destino são tramas, enredos… podemos até mesmo cair de cabeça no que pensávamos querer mas isso não quer dizer que seja o melhor para nós.



Exploramos, confiamos, envolvemo-nos… mas ao contrário dos contos, na vida real depois do clímax vem sempre o declínio. O que outrora foi alegria, hoje pode já ser comodismo.



Não queiras o que não existe, não esperes algo diferente do que aconteceu aos outros, nem igual.


Não procures o final de um circulo… ele não existe.