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segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Até à última gota





Ontem parei no tempo.



Concentrei-me na vela que se consumia lentamente à minha frente. Via a vida naquela chama e o seu recheio naquela cera. Todos somos muito diferentes mas é bem verdade que também somos bem iguais. Só existem dois tipos de velas para todos nós: aquelas cuja cera transborda e goteja momentos bons e maus vividos; e outra onde ela se acumula no centro, desperdiçando tudo o que poderia ter vivido, criando um imenso poço no seu seio.



Estou hipnotizado com o que vejo. O ardor intenso que escalda toda a divisão apenas derrete pequenas porções que gesticulam como vídeos do passado em miniatura. O pavio consome-se despreocupado, triste e lentamente. Vejo no ar os fumos de vidas passadas, tormentos e medos, alegrias e conquistas. Sinto o cheiro de ódios e podridão, amor e de pura paixão.



O ser humano é inconstante, é reticente, aqui jaz a sua beleza, aqui se vinca a sua derrota.



São os bons e maus momentos que fazem a vida valer a pena; sonhos são lenha molhada que não alimenta apenas prolonga e arrasta… não vivemos, pensamos estar a viver.



No final, quando o pavio desaparecer e a chama se extinguir, somos o que fizemos e não o que um dia sonhamos fazer.