
Ontem parei no tempo.
Concentrei-me na vela que se consumia lentamente à minha frente. Via a vida naquela chama e o seu recheio naquela cera. Todos somos muito diferentes mas é bem verdade que também somos bem iguais. Só existem dois tipos de velas para todos nós: aquelas cuja cera transborda e goteja momentos bons e maus vividos; e outra onde ela se acumula no centro, desperdiçando tudo o que poderia ter vivido, criando um imenso poço no seu seio.
Estou hipnotizado com o que vejo. O ardor intenso que escalda toda a divisão apenas derrete pequenas porções que gesticulam como vídeos do passado em miniatura. O pavio consome-se despreocupado, triste e lentamente. Vejo no ar os fumos de vidas passadas, tormentos e medos, alegrias e conquistas. Sinto o cheiro de ódios e podridão, amor e de pura paixão.
O ser humano é inconstante, é reticente, aqui jaz a sua beleza, aqui se vinca a sua derrota.
São os bons e maus momentos que fazem a vida valer a pena; sonhos são lenha molhada que não alimenta apenas prolonga e arrasta… não vivemos, pensamos estar a viver.
No final, quando o pavio desaparecer e a chama se extinguir, somos o que fizemos e não o que um dia sonhamos fazer.