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quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Um Comboio na praia



À minha volta as árvores correm, as pessoas falam imperceptivelmente atropelando-se, os carris gemem á nossa passagem.


Fecho os olhos. Silêncio, puro silêncio. Respiro fundo uma vez, outra mais. Concentro-me no vazio que me preenche. O ritmo cardíaco abranda, compassado, lento.


Cheiro o mar, sinto calor, a luz que me atravessa as pálpebras e pequenos grãos que me enchem as mãos.


O coração dispara, estou perdido. Onde vim parar? Cautelosamente abro os espelhos da alma e vejo o que me rodeia. Já não existem gemidos trepidantes, vozes amontoadas… apenas uma pequena península com água calma, repousada que abraça uma rocha no seu ritmo terno. A areia branca, fina fica mais pálida pela luz que a lua nova lhe lança e a brisa aquece o meu rosto despido de expressão. Em volta uma praia deserta.

Limpo os olhos do sono que ainda os perturba. Afasto as mãos e vislumbro um clarão, lá ao longe, embebido na areia como se o chão ardesse numa intensidade controlada.


Aproximei-me


No chão dispostos em forma circular, ardem pavios de areia. Não se sente o calor, é chama que não queima apenas arde como paixão sem desejo. No centro um leito feito em lençóis de seda negros como uma noite sem luar ou céu estrelado cobrem a areia pálida.


Procuro confuso, perco-me em olhares esguios até que te vejo. Vens na minha direcção. Fixo-te atentamente. Não trazes tecidos a cobrir-te o corpo moreno, vejo-o perfeitamente esculpido como se das mãos de um artesão tivesses saído. Entras no círculo de luz e paras. Os teus olhos fixam os meus, num olhar penetrante. Sinto-me um livro aberto cujas páginas devoras sem medo ou hesitação.


Estendes a mão e sinto-me deslizar em direcção a ti, os meus músculos não têm vontade própria. Beijas-me sem uma única palavra. O coração galopa dentro do meu peito, sinto a vida que me percorre as veias. Cada vez mais leve, a roupa desvanece à medida que me beijas o corpo. Estou vulnerável como no dia em que o mundo me conheceu.


Perdemo-nos na escuridão dos lençóis. Mãos que se cruzam e envolvem, que se perdem e reencontram, se dão e esperam receber. A intensidade aumenta. A respiração acelera. O teu rosto transparece um prazer louco.


Os pavios de areia vão-se apagando um a um…


É um jogo de sedução que nos enlouquece. Invado-te, abruptamente, de forma imperceptível unimo-nos num só. O ritmo das ondas acelera, a brisa outrora quente ferve agora no ar ao mesmo tempo que apazigua o fogo dos nossos corpos. Mordes-me o lábio; os teus olhos não param, deliram; estamos fora de nós. As pernas tremem, sem forças; os braços lutam para prender e dominar. Oiço ao longe a respiração de ambos, estamos quase lá, os dois, juntos.


O último pavio extingue-se. O comboio pára. Eu acordo, saio. O sonho acaba. A vida continua.