Porque olho sempre o passado? Porque não me sinto á vontade e preparado para falar do futuro? Será que todos temos uma sina traçada na ténue linha do destino? Apreciamos olhando para trás vendo o que já passou e não agarrando a braços largos avançando nas entrelinhas …
Coloco um filme numa antiga máquina de filmar, ligo a luz e deixo-o desenrolar… vejo o desfiar de imagens que num emaranhado de sensações descrevem passagens, sentimentos. De um clima tropical com palmeiras e praias luzidias, de areia branca e água límpida reluzente, onde os tempos eram calorosos e abertos… onde sentia um evoluir da natureza de um modo constante e ininterrupto… num tempo quente e afectuoso, um tempo de crescimento constante. Era o que via, o que sentia, o que esperava…
De repente num elevador de horas, segundos, competições entre destinos e desencontros de sentimentos, vemo-nos presos em patamares diferentes, em níveis desiguais… As escadas são pura imaginação, a escalada não existe, acredito em prados verdejantes e em relvados frescos e vivos… planos de evolução conjunta e sem limites. Esperava voltarmos para lá… para a recta atribulada, não obstante uma recta, sem escadas ou desníveis, com dificuldades e recuos… mas sempre lado a lado… mas não o fizemos… ou não o consigo ver!
O elevador deu um salto… gelou… bloqueou… enrijeceu… rodeado de icebergues e placas de gelo que me contorcem e me entristecem o olhar… o meu reflexo aprisionado no gelo vislumbra-me e tenta fazer-me entender mas não fala. Talvez seja a minha imaginação, talvez por não te ter visto depois daquele degrau que nos separou, talvez porque sou inseguro, por ter agora medo de falar demais, ou de não falar de todo… Medo de ser o que sempre fui e aprisionar-te num reflexo de gelo, calado.
"Vivir con miedo es vivir la vida por la mitad "… é justo, é verdadeiro, é sincero e muito honesto. Mas viver não temendo ficar sem o que nunca foi ou pode ser nosso, porque não somos de ninguém, é apenas ingénuo.
